09/12/2002

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*Élio E. Müller



SEGURANÇA - um anseio popular milenar.

 

  A vida na Colônia de Neu-Württemberg nem sempre foi tranquila. Vó Alzira costumava contar fatos da Revolução de 1923. Essa Revolução trouxera uma grande insegurança e muita preocupação também para a população da Colônia, em particular aos comerciantes e moradores da sede da Vila.
  - "Certo dia foi trazida a notícia que um indivíduo chamado Leonel Rocha vinha saqueando todas as cidades e vilas, por onde passava", dizia vó Alzira.
  - "Êle atacou Neu-Württemberg?", eu quis saber.
  - "Sim, o Leonel Rocha na frente de mais de 100 homens, invadiu a nossa Vila. Foi apenas por um dia. Acamparam no centro da praça. Saquearam todas as casas comerciais. Roubaram de tudo. Levaram desde dinheiro até vestes, calçados e muitos objetos de valor."
  - "A Polícia não fez nada?", voltei a perguntar.
  - "Não existia um serviço de Polícia, como hoje. Apenas podíamos contar com a segurança fornecida pelos próprios colonos. Foi por este motivo que, depois que o Leonel Rocha saiu, rumo a Palmeira das Missões,  o pastor Hermann Faulhaber convocou todos os colonos. Naquele dia organizaram um tal de 'Selbstschutz', um corpo armado de defesa civil".
  - "Alguém de nossa família participou desse tal de 'Selbstschutz'?, eu quis saber.
  Vó Alzira explicou: - "O teu avô Alberto Radmann, meu marido, apresentou-se como voluntário. Ele, junto com muitos outros colonos da Ramada,  passaram a vigiar pontos definidos pelo pastor Faulhaber. Só para te dizer, quando a Revolução acabou, o teu avô, por causa do bom desempenho, foi convidado para exercer a função de Inspetor da Ramada. Como consequência, por longos anos ele teve que cuidar da ordem e da segurança nessa área. Ele era chamado para acabar com brigas de vizinhos, para solucionar casos de roubos e para evitar brigas ou tumultos em festas e reuniões da Escola e da Igreja".
 
  Alberto Radmann - Inspetor da Ramada
 
  - "E quanto ao vovô Ernesto Müller? Atuou êle no 'Selbstschutz'?", eu quis saber.
  - "O Ernesto Müller foi um dos mais antigos atiradores de Neu-Württemberg. Já em 1910 ele encaminhara, na casa dele, a fundação do 'Clube de Atiradores São João de Sete de Setembro de Neu Württemberg'. Ele mesmo foi quem escolheu o nome do clube e se apresentou para redigir os Estatutos, e para ser o secretário e redigir as atas. Eles sempre tiveram bons atiradores, bem treinados. Em 1923 a maioria deles partiu em defesa da Colônia. Além do Ernesto Müller lembro dos quatro irmãos Schumann, do Carlos Heinrich, de Jacob Buss, Heinrich Schemmer, Albin Schmidt, Heinrich Trennepohl, Heinrich Schwingel, Heinrich Pautz, Wilhelm Pautz, Ferdinand Zillmer e Martin Hack".
  - "O que fizeram esses atiradores?", perguntei.
  - "Eles fecharam todas as entradas de Neu-Württemberg, de norte a sul. Fizeram barreiras, com rolos de arame farpado e colocaram homens armados, escondidos, fazendo uma vigilância permanente. O trabalho deu resultado. Quando o Leonel Rocha e seus 100 revolucionários tentaram retornar novamente para o sul, através dos caminhos de Neu-Württemberg, levaram um grande susto. Na verdade eles só foram valentes com gente indefesa. Por isto desviaram de Neu-Württemberg, com o rabo entre as pernas".
 
  Quanto ao ensinamento a ser tirado deste relato, acredito que todas as cidades, ainda hoje, precisam de um trabalho de defesa?Apenas ocorreu uma diferença. Em nossos dias nenhuma cidade poderá mobilizar e armar a população. Os mecanismos de defesa, de cada cidade, precisam ser outros. A base deverá ser a educação, com uma formação intensiva da população, através dos meios de comunicação, das escolas, das organizações religiosas e dos clubes de serviço. Tudo começa com uma boa educação, que seja acessível a todas as pessoas, em particular, dos mais carentes e daqueles que ficaram alijados das oportunidades de vida digna.